DITADURA NUNCA MAIS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Arte & Cultura| 05/04/2005 | Copyleft

PRIMEIRA PESSOA

O golpe de 1964 e a obra de Erico Verissimo

Incidente em Antares , último romance publicado do escritor e primeiro com grande repercussão na literatura brasileira depois da consolidação do regime ditatorial, é uma bem humorada ainda que sinistra sátira, confissão e também um testemunho do próprio cidadão Erico, motivada pelo seu desencanto com a sociedade brasileira.

Flávio Aguiar

Falar da relação entre a obra de Erico Verissimo com o golpe de 1964 implica a consideração de Incidente em Antares, último romance publicado do escritor e primeiro com grande repercussão na literatura brasileira depois da consolidação do regime ditatorial, em sua pior fase, durante o governo do General Garrastazu Medici. Antes houvera, entre outros, a publicação de Quarup, de Antonio Callado, em 1967.

Este de Erico saía no auge da pretensa, pelo menos assim propagandeada, quase unanimidade nacional em torno do “milagre econômico”, do “Brasil Grande”, logo após a conquista do tri-campeonato mundial de futebol e da posse definitiva da Taça Jules Rimet, de ouro maciço, que seria roubada da sede da CBF e substituída por uma réplica.

Vivia-se ao som de músicas comemorativas do feito desportivo e que exaltavam a compacta união em torno dos ideais e valores da nova economia e da sua entronização no pantheon dos valores e objetivos nacionais permanentes. “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção…”, começava uma delas. Mas isto era ainda o lado ameno, porque havia as ufanistas como a que entoava: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo, meu coração é verde amarelo azul anil…”. Vendiam-se os adesivos com a frase “Brasil: ame-o ou deixe-o”, imitação servil do “America, love it or leave it” dirigido aos dissidentes norte-americanos que se recusavam a defender o imperialismo de seu país e o governo corrupto e repressivo do Vietnã do Sul.

Criara-se um clima de “consentimento ao horror”. Em todos os círculos de mediana informação sabia-se dos assassinatos e das torturas praticadas nos porões da ditadura. É certo que havia uma censura e uma auto-censura rígidas na imprensa, censura às artes, perseguições nas universidades; as passeatas eram duramente reprimidas; a defesa do meio-ambiente, tema que começava a se projetar internacionalmente, podia dar cadeia no Brasil. Éramos embalados por peças de publicidade que anunciavam a transformação da Amazônia em pasto, com os dizeres: “chamavam aquilo de inferno verde; mas estamos transformando aquilo num paraíso”. Havia duas fotos lado a lado: a primeira, a do inferno verde, era a de uma floresta impenetrável, encimada por árvore majestosa; a segunda, a do paraíso, era um pasto cortado por uma cerca e coberto de zebus.

Denunciar os crimes do terrorismo oficial implantado no Brasil era “prejudicar a imagem do Brasil no exterior”. Era anti-patriótico. A supressão da liberdade e a definitiva conceituação da repressão como – já usei a expressão – um “objetivo nacional permanente” eram vistas como um mal – senão um bem – necessário para impulsionar o Brasil na direção de suas grandes e faraônicas realizações. Num verdadeiro torcicolo de tempos verbais, havia um dístico da ditadura que sintetizava tais consignas: “o Brasil era o país do futuro; agora o futuro chegou”. De quebra, empresas privadas nos ofereciam pérolas anti-éticas como “o melhor do capitalismo é ser capitalista” ou “você é como eu: gosta de levar vantagem em tudo”.

Se evoco tudo isso – coisas vivas na lembrança de quem viveu naquela época – é para recordar o clima em que saiu a corajosa denúncia contida em Incidente em Antares, sobre a supressão das liberdades, a institucionalização da mentira e da violência política e a repressão aos dissidentes e trabalhadores consolidadas – é verdade que não inventadas – pelo regime ditatorial implantado em 1964 com o golpe militar.
Mas antes de falar do romance, escrutinemos o perfil de seu autor. Quem era o cidadão Erico Verissimo? Deixemos que ele mesmo fale sobre o assunto.

Primeiro, consideremos estas notas escritas para o jornalista Paulo Mendes Campos, em 1957: Sobre a minha fisionomia moral e intelectual, correm as versões mais desencontradas. Para uns, sou um escritor pornográfico. Para outros, fabricante de perfumarias para mocinhas. Uns me consideram revolucionário; outros, reacionário. Para muitos, sou um pequeno burguês sentimental”.

Recordemos que na época, no jargão da esquerda, “pequeno burguês” era quase um insulto; no jargão da crítica literária, “sentimental” ainda guarda um travo de obra ou escritor que visam sobretudo “produzir um efeito afetivo predominante”, ou seja, se dirigem a um público “inferior”, “pouco sofisticado”. No contexto, leia-se: um pequeno burguês incapaz de superar os laços afetivos que o prendem à sua condição de classe.

É verdade que Erico foi taxado de quase tudo em sua vida. Começou a desagradar à direita em 1935, quando assinou (encabeçou) manifesto de condenação à invasão da Abissínia (Etópia) pelo fascismo italiano, condenando ainda este regime, o nazista e os integralistas brasileiros. Desagradou também à direita católica com seu romance Caminhos cruzados, desta mesma época, em que expunha abertamente as mazelas morais e sobretudo a hipocrisia das classes burguesas brasileiras, em sua versão portoalegrense. Passou a ser apostrofado dos púlpitos das igrejas locais, nos sermões de domingo, como pornográfico, comunista, etc. Foi chamado à polícia política para depor, coisa que se sucederia mais tarde, chegando a ser fichado como “comunista”.

Desagradou também à esquerda, então quase sinônimo do Partido Comunista do Brasil ou Brasileiro. Os romances de Erico não se adequavam nem ao realismo socialista pedido pela política oficial da União Soviética, nem ao “romance proletário” praticado na Europa e no Brasil, durante algum tempo, por exemplo, por Jorge Amado, ainda que em versão bastante original graças à mitologia baiana que ele ajudou a consolidar. Os pobres, na literatura de Erico, eram pobres e miseráveis demais para terem alguma sombra de heróicos construtores de um novo mundo. Eram, antes, ruínas ou vestígios do naufrágio do velho mundo e de seus valores carcomidos e podres, assim como as classes mais abastadas eram o sinal de seu naufrágio moral e político. Seus personagens esquerdistas eram retorcidos e complicados demais para serem também vetores de um novo mundo. E os romances enveredavam por uma percepção algo perplexa de um mundo em ruínas – o do Brasil tradicional, arcaico e agrário – e de um problemático Brasil moderno que, além de ser engolfado por valores duvidosos, não rompia de todo com as ruínas do antigo. Creio que esta percepção acompanhou todos os romances de Erico, inclusive O tempo e o vento, e é a moldura do humanismo algo irônico, cético, um tanto desencantado, mas de princípios éticos firmes e inabaláveis, que animaram toda a obra e a vida do escritor.

Para culminar, em 1940 Erico publicou seu romance Saga, em que um de seus personagens preferidos, Vasco Bruno, vai lutar na guerra civil espanhola. Mais tarde, Erico declarou (escreveu) que esse era um romance equivocado, e dos que menos lhe agradava, e que achava ainda que o destino de seu personagem, abandonando a certa altura o exército republicano por um processo de desilusão, advinha de uma incompreensão de ambos (personagem e autor) sobre a natureza do que se passava na Espanha. Mas Erico atribuiu esses percalços ao clima de aturdimento em que caiu diante das vitórias dos nazistas e sobretudo do pacto entre Stalin e Hitler, que os comunistas brasileiros defendiam como sinal de sagacidade. Podia até ser; mas para o cidadão Erico Verissimo tal sagacidade provocava alguma indigestão moral.

Erico se descrevia como um socialista democrático. Quer dizer: lia no mundo capitalista injustiças sociais demasiadas para que não as denunciasse; abominava os fascismos emergentes ou acalentados; ao mesmo tempo arrepiava a falta de liberdade do regime comunista implantado primeiro na União Soviética e depois em outros países europeus, na China, e também em Cuba.

Em 1949, Erico escreveu uma carta a Júlio Teixeira, explicando porque não comparecia ao Congresso da Paz organizado em Moscou (a que, se não me engano, compareceu Josué Guimarães), ainda que assinasse manifesto pacifista:

“Minha posição, meu caro, é muito difícil. Como velho pacifista não posso negar meu apoio a um movimento sincero em prol da paz. Como socialista, não quero nem pretendo servir à reação e ao fascismo. Mas como democrata me repugna também servir de instrumento à política de Moscou. O mundo burguês está podre. Mas o mundo bolchevista que nasceu em meio a tantas promessas e esperanças já se deteriorou. Um estado totalitário como a União Soviética, que dirige não só a economia, como também a arte, a ciência e a literatura com uma mão de ferro – é a última coisa que um homem do meu temperamento pode desejar”.

A carta prossegue em sua recusa ao convite, argumentando que o Congresso da Paz será instrumentado por Moscou, que ele, Erico, quer se manter eqüidistante da Casa Branca e do Kremlin. Rejeita a pecha de ser um “pequeno burguês indeciso”, reconhece que sua posição não é fácil nem cômoda, mas finaliza: “Mas é a minha posição e eu tenho de proceder de um modo coerente com ela”.

Foi este Erico, já um escritor consagrado nacional e internacionalmente, que se deparou com o golpe de 1964. Pode-se ver, por sua correspondência e por manifestações públicas, que Erico não tinha qualquer simpatia pelo governo de João Goulart. Mas vê-se também que desde a primeira hora condenou a supressão das liberdades imposta pelo novo regime vitorioso.

Em 17 de novembro de 1964, ele escreveu a Enio Silveira, contando que estivera “às voltas com o DOPS e o IIIo. Exército para libertar o escritor Reinaldo Moura, “preso em circunstâncias kafkeanas”. Completa, definindo sua primeira posição a respeito: “Mantenho bem aberto o olho crítico e me manifesto de acordo com o mérito de cada caso. Repito o que disse e escrevi logo depois do golpe de 31 de Março (ou de 1o. de Abril): “Essa revolução nos tirou dum pesadelo mas nos atirou num sonho mau”. É o que ainda penso.”

Acompanhando as linhas de pensamento manifestas em sua correspondência e escritor, vemos crescer seu mal-estar perante as contínuas denúncias de torturas e perseguições.

Em cartas escritas a vários amigos desde os Estados Unidos, Erico manifesta seu reconhecimento de que algumas coisas melhoraram no Brasil de 1970. Diz que há mais “planejamento sério” no governo, por exemplo. Mas declara-se cada vez mais inconformado com a “cassação de professores, a intimidação à imprensa e a mutilação dos direitos civis”.

Nesta época, ele já trabalhava no romance Incidente em Antares. Desde que concluíra O tempo e o vento preocupações mais diretamente políticas tinham ocupado mais e mais espaço em sua obra de ficção. Em 1965, publicara O senhor embaixador, de certo modo espelho da revolução cubana e das convulsões caribenhas e latino-americanas. Depois fora a vez de O prisioneiro (1967), denúncia da intervenção imperialista no Vietnã. A partir daí preparara novo romance (que deixou inconcluso) sobre a farsa moral da sociedade burguesa no Brasil, a que chamou primeiro de A dança com máscaras e depois de A hora do 7o. anjo, algo que lembra um projeto no estilo de Ingmar Bergman ou talvez de Luís Buñuel.

Porém recorda ele que passeando em Petrópolis, no dia 8 de maio de 1970, teve um estalo, em que a idéia do novo romance se estruturou definitivamente, suplantando tudo mais. O estalo lhe veio da recordação de uma foto de uma dezena de caixões esperando o sepultamento durante uma greve de coveiros em Nova Iorque, vista em 1969. Daí ao trabalho foi um pequeno salto.

Deve-se lembrar também que Erico vinha de um momento especial propiciado pela publicação de sua obra completa pela Editora Aguilar em 1966. Tivera a oportunidade de rever quase toda sua obra, de fazer-lhe o balanço crítico, de escrever prefácios para algumas delas. Incidente em Antares vale, portanto, também como uma espécie de súmula do escritor, que revê sua trajetória e faz-lhe o balanço um tanto quanto motivado por um sentido auto-crítico.

Em carta de setembro de 1970, dirigida a Maurício Rosenblatt, ele assim descreve seu romance: “Acho que ficou muito bem a “apresentação” de Antares, a formação das oligarquias, a história enfim da cidade e de seus habitantes traçada num desenho a bico de pena, meio em preto e branco e com um traço não caricatural mas sarcástico. É um romance sem heróis. Na segunda parte o leitor pode tomar partido, mas na primeira não creio que haja nenhum personagem com quem o leitor queira identificar-se”.

Já em julho, escrevia ele a Flávio Loureiro Chaves: “(…)estou em Antares, pouco acima de São Borja, à margem esquerda do Uruguay. Comecei no período pleistocênico, com os gliptodontes e mastodontes, dei um pulo de mais de um milhão de anos e caí em 1830, quando Antares era apenas o Povinho da Caveira e depois vim vindo e acompanhando a formação das oligarquias locais, pasando pela Guerra dos Farrapos e chegando até o Jango Goulart. E tudo isso foi feito com economia e com o fim de preparar o cenário, o palco e a comparsaria para o “indicente” (sic)”.

Na verdade, Erico nem tanto econômico foi. Em seu relato, misturam-se (ampliando tendência já manifesta antes) cartas, relatos de viagem, diários, reportagens, relatos acadêmicos, narrativas em terceira pessoa, diretos e indiretos livres, enfim, há uma multiplicidade de estilos e técnicas mobilizados que criam uma imagem multifacetada e fragmentária do “povinho”, o que prepara também o clima do “incidente”.

Este, a bem da verdade, ocorre alguns meses antes do golpe de estado, em 13 de dezembro de 1963. Mas no contexto do lançamento do romance, em 1971, deve-se ler claramente uma “fábula macabra” (a expressão é de Flávio Loureiro Chaves) que denuncia a “supressão das palavras e dos fatos” consagrada pela ditadura subseqüente. Ela, a ditadura, não foi a origem dos males da sociedade brasileira, mas da decisão de protelá-los, de não erradicá-los e de até lucrar com eles.

A menção aos mastodontes, aos gliptodontes e outros remanescentes da pré-história torna-se metáfora assumida ao fim (num discurso estouvado à beira do túmulo do Coronel Tibério Vacariano) e ao cabo do universo arcaico e arcaizante de nossas classes dirigentes, que se revestem de modernidades duvidosas e sempre excludentes. A imagem violenta dos defuntos que vêm ao coreto da praça da República lembra a sociedade em que os mortos falam e os vivos calam, em que a morte é eloqüente porque rompe com os “compromissos comprometedores” da vida, regida pelo soslaio, pelo olhar equívoco, pelo meio-silêncio da hipocrisia e do consentimento ao abominável.

Entre os mortos que retornam à praça um há – João Paz – que foi barbaramente espancado e torturado para denunciar supostas companheiros de um suposto “grupo dos onze” brizolista na região, e que recebeu falso atestado de óbito como padecendo de embolia pulmonar. Mas não é apenas sua presença que denuncia a repressão mutiladora transformada em diktat de Estado. É conjunto dos mortos que traz à tona tudo aquilo que a sociedade não quer ver a respeito de si mesma, nem seus próceres querem admitir que praticam. A repressão política é apenas a ponta do iceberg da enorme hierarquia autoritária que organiza a sociedade brasileira em sua vida cotidiana.

Na época, houve leituras que consideraram Incidente em Antares uma concessão de mercado à voga do “realismo mágico”, do “fantástico”, do “real maravilhoso” trazido – e meritoriamente, diga-se de passagem – pela literatura hispano-americana largamente traduzida no Brasil depois de seu sucesso em Paris, Berlim, Londres e Roma. Nada mais distante da verdade, como já apontou Flávio Loureiro Chaves.

Incidente em Antares é uma sátira social e política levada às últimas conseqüências. Sem desmerecer nossos confrades de América Latina, e de outras plagas, devemos reconhecer que na própria literatura brasileira há uma profusão de “mortos que falam” que ajudam a amoldar em nossas letras a eloqüente “fábula macabra” de Erico.

O exemplo mais óbvio é o de Brás Cubas, de Machado de Assis. Mas deste mesmo autor há o Bentinho, de Dom Casmurro, espécie de morto-vivo que se esqueceu de morrer. Ou lembremos ainda de Madalena, a protagonista de São Bernardo, cujo suicídio clama por justiça na escrita confessional de Paulo Honório, o sobrevivente. Esse “discurso dos mortos” soma-se a uma larga faixa de escritos na ficção brasileira em que predomina ou ressalta o tom confessional, em que se vai confessar o inconfessável. Ora, a peculiaridade da confissão é o de ser um tipo de discurso intermediário entre o público e o privado. Não é um discurso inteiramente público, como o testemunho, nem inteiramente “privado”, como solilóquio ou o monólogo, ou o pensamento capturado de algum personagem, mesmo que em indireto livre. Assim o “confessional”, que requer a redenção pela oitiva selecionada, posta-se como metáfora de nossa condição histórica, a de sempre oscilar entre o inconfessável dos afetos e desafetos privados a se manifestarem, no entanto, sempre proeminentes no nosso sempre inconcluso e dúbio espaço público, ainda carente de uma autêntica revolução republicana. O discurso dos mortos, e o discurso gestual de sua presença e putrefação, emoldurados pelos diários, pelas reportagens que não reportam, pelos atestados de óbito que não atestam, mas mentem descaradamente, pelas meias verdades dos gestos de uma sociedade que sempre recua na hora da verdade, dão um testemunho que não se completa afinal, que não redime os vivos, mas que se torna uma lancinante confissão da impossibilidade de darmos, coletivamente, o salto revelador de nossa própria redenção, para mergulharmos na condição plena, mas sempre protelada, de uma inapelável condição republicana.

Como estamos diante de uma encenação irônica da presença e dos discursos confessionais (que vêm dizer o indizível, o inefável, o insuportável, o nefando, o nefasto, o que não deveria ser dito, vêm confessar o inconfessável e nomear o inominável, o abominável, o que nunca deveria ser nomeado), o ponto de vista do escritor e de sua voz narrativa não se identificam pelnamente nem com a confissão nem com o confessado. Nessa distância, nesse hiato aberto para os leitores, entre a fala/presença e o olhar crítico que as acolhe, o escritor atesta sua interface com o ethos do testemunho. Através das confissões de seus personagens o escritor, é verdade, se solidariza com suas fragilidades e limitações, mas dá seu testemunho público sobre a sociedade, seu momento e sua geração.

Incidente em Antares é assim uma bem humorada ainda que sinistra sátira, confissão e também um testemunho do próprio cidadão Erico, motivada pelo seu desencanto com a sociedade brasileira, pela impossibilidade desta de romper com o passado tolhedor do futuro e acolhedor para nos consolar de nossas misérias. Mas a sátira e a confissão testemunho são também motivados pelo eterno recomeço da palavra “liberdade”, como no final do romance. A liberdade, entendida como um valor permanente, e como também a liberdade de se lutar contra as injustiças sociais, é parte do legado maior, ético e estético, de Erico Verissimo às gerações futuras, por sobre os muros de silêncio alevantados pelos coveiros da história.

JAMELÃO – NERVOS DE AÇO


FANTÁTICO USANDO O VELHO COMO NOVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Fantástico utilizou matéria de maio da Carta Capital

Enviado por luisnassif, seg, 13/08/2012 – 14:21

Da Carta Capital

É Fantástico: o sequestro da notícia alheia

Leandro Fortes

Desde sábado, depois que começou a circular fortemente pelas redes sociais a capa deCartaCapital sobre o consórcio Veja & Cachoeira, a TV Globo desencavou uma notícia velha, dada em primeira mão…também por CartaCapital, sobre a suspeita de um sequestro levado a cabo pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O plágio tardio foi uma maneira desesperada de tentar neutralizar a única notícia que realmente ainda interessa sobre o tema, desde a cassação de Demóstenes Torres: as ligações de Policarpo Jr., diretor da Veja em Brasília, com o bicheiro, a quem pediu para grampear um deputado federal.

Botaram a matéria velha noFantástico e obrigaram O Globo, cada vez mais o primo pobre das Organizações, a repercutir a história. Miserável sina, esta, do velho diário carioca, obrigado a repercutir notícia sequestrada de páginas alheias.

Na edição 698, de 18 de maio passado, CartaCapital trouxe a capa “No mundo de Cachoeira”, uma reportagem de Cynara Menezes sobre os múltiplos esquemas criminosos do bicheiro. Na matéria interna, intitulada “Senhor do submundo”, um dos pontos tratados pela repórter foi, exatamente, o sequestro que a Globo passou o fim de semana apresentando como novidade.

Leiam o texto de Cynara, escrito e publicado há três meses (leia mais clicando AQUI):

“Na quarta-feira 9, o também delegado da PF Raul Alexandre Souza, titular da Operação Vegas, havia relatado à CPI uma “ampla sorte de crimes de natureza grave” cometidos pelo grupo de Cachoeira. Segundo o federal, em determinado momento chegou a temer pela integridade física de um dos membros da quadrilha. Em abril de 2009, narrou o delegado, um funcionário “foi sequestrado e mantido em cárcere privado” pelo fato de Cachoeira desconfiar que o assecla estivesse envolvido no roubo de dinheiro apurado nas máquinas caça-níqueis. Os autores do sequestro teriam sido Jairo Martins e Idalberto Martins de Araújo, o Dada, os arapongas que aparecem nas escutas como fontes constantes do jornalista Policarpo Jr., diretor da sucursal de Brasília da revista Veja.”

Ou seja, vivem num fantástico mundo de bobos e cegos, certos, entre outras alucinações, de que as pessoas só entram na internet para rever os capítulos da novela da Carminha e as gracinhas do Globo Esporte.

Amanhã, terça-feira, dia 14 de agosto, o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) vai ao plenário da CPI do Cachoeira pedir a convocação de Policarpo Jr. e dar início à única investigação que realmente precisa ser feita na comissão, já que todo o resto já foi apurado pela Polícia Federal.

Veja sustentava o esquema criminoso de Cachoeira, e vice-versa.

O único sequestro dessa história é o sequestro da verdade, da ética e do jornalismo.

Como a Carta Magna se tornou uma carta menor (I)


Internacional| 07/08/2012 | Copyleft

Como a Carta Magna se tornou uma carta menor (I)

Em algumas gerações chegaremos ao milênio da Carta Magna, um dos grandes acontecimentos no estabelecimento dos direitos civis e humanos. Não está claro ainda se haverá motivo para celebração. E isso deveria ser objeto de grave e imediata preocupação. Não é uma perspectiva atraente caso persistam as atuais tendências de ataque e destruição de direitos. O certo é que ainda há um longo caminho para se realizar a promessa da Carta Magna. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky

Em algumas gerações chegaremos ao milênio da Carta Magna, um dos grandes acontecimentos no estabelecimento dos direitos civis e humanos. Não está claro ainda se se vai celebrar, chorar ou ignorar.

E isso deveria ser objeto de grave e imediata preocupação. O que façamos ou deixemos de fazer hoje determinará o tipo de mundo que saudará esse acontecimento. Não é uma perspectiva atraente caso persistam as atuais tendências, e não é a menor delas que se está estraçalhando diante de nossos olhos.

A primeira edição acadêmica da Carta Magna foi publicada pelo eminente jurista William Blackstone. Não foi tarefa fácil. Não havia disponível nenhum texto bom. Como ele escreveu, “o corpo da carta os ratos, desgraçadamente, comeram-no”; esse comentário contém um simbolismo sombrio, hoje, diante da tarefa que os ratos deixaram inacabada.

A edição de Blackstone compreende na realidade duas cartas, que têm por título a Carta Magna e a Carta do Bosque. A primeira, a Carta de Direitos, reconhece-se de modo geral como o cimento dos direitos fundamentais dos povos de língua inglesa, ou tal como dissera, de modo mais expansivo, Winston Churchill, “a carta de qualquer homem que se respeite, em qualquer tempo e lugar”. Churchill se referia concretamente à ratificação da Carta por parte do Parlamento, na Petição de Direito que implorava ao Rei Carlos I que reconhecesse que a lei, não o rei, é o soberano. Carlos concordou por um breve período, mas logo violou seu juramento, deixando pronto o cenário para uma guerra civil mortal.

Depois de um amargo conflito entre o Rei e o Parlamento, restaurou-se o poder da realeza na pessoa de Carlos II. Na derrota, não se esqueceu da Carta Magna. Um dos dirigentes do Parlamento, Henry Vane, foi decapitado. Ele tentou ler um discurso no palco, mas trataram de impedi-lo, para que tão escandalosas palavras não chegassem aos ouvidos da multidão que aplaudia a sua condenação. Seu grave delito tinha consistido em redigir uma petição reivindicando o povo “como origem de todo poder justo” na sociedade civil, nem o Rei nem Deus o seriam. Foi essa postura pela qual lutou contundentemente Roger Williams, fundador da primeira sociedade livre no que hoje é o estado de Rhode Island. Suas opiniões heréticas influenciaram Milton e Locke, embora Williams fosse muito mais longe, fundando a doutrina moderna da separação da Igreja e do Estado, ainda bastante recusada nas democracias liberais.

Como sempre ocorre, a aparente derrota levou adiante, no entanto, a luta pela liberdade e pelos direitos. Pouco depois da execução de Vane, o rei Carlos outorgou uma Carta Real às propriedades rurais de Rhode Island, declarando que “a forma de governo é democrática” e, além disso, que o governo podia proclamar a liberdade de consciência para papistas, ateus, judeus, turcos, até para os quakers, uma das seitas mais temidas e maltratadas, de todas as que pereceram naqueles dias turbulentos. Tudo isso tornara-se assombroso no clima da época.

Poucos anos mais tarde, a Carta de Direitos viu-se enriquecida pela Lei do Habeas Corpus, de 1679, que tinha como título “Lei para melhor assegurar a liberdade do súdito e para evitar a prisão em ultramar”. A Constituição Americana toma-o de empréstimo da Common law inglesa, ao dispor que “não se suspenderá o habeas corpus”, salvo em caso de rebelião ou invasão. Numa decisão unânime, a Corte Suprema dos EUA defendeu que os direitos garantidos pela Lei foram “considerados pelos pais fundadores como a mais alta salvaguarda da liberdade”. Todas essas palavras deveriam ter ressonância hoje em dia.

A Segunda Carta e os Bens Comuns
A significação da carta que a acompanhava, a Carta do Bosque, não é menos profunda e talvez seja até mais relevante, hoje, como Peter Linebaugh investigou em detalhe, na sua estimulante história, ricamente documentada, da Carta Magna, e sua trajetória posterior. A Carta do Bosque exigia a proteção dos bens comunais dos poderes exteriores. Os bens comunais eram fonte de sustento da população geral: seu combustível, seus alimentos, seus materiais de construção, tudo o que fosse essencial à vida. O bosque não era a selva primitiva. Havia sido cuidadosamente desenvolvido ao longo de gerações, mantido em comum, com suas riquezas à disposição de todos, e preservado para as futuras gerações: práticas que se encontram hoje fundamentalmente em sociedades tradicionais ameaçadas em toda parte do mundo.

A Carta do Bosque impunha limites à privatização. Os mitos de Robin Hood capturam a essência de suas preocupações (e não é em nada surpreendente que a popular série de tevê dos anos 50, As Aventuras de Robin Hood, tenha sido escrita anonimamente por diretores de Hollywood perseguidos e postos na lista negra do Macartismo por conta de suas convicções esquerdistas). Já no século XVII, no entanto, esta Carta tinha sido vítima da ascensão da economia mercantil e das práticas e da moralidade capitalistas.

Com a perda da proteção do cuidado e do uso comuns dos bens comunais, os direitos humanos se viram restringidos ao que não podia privatizar-se, uma categoria que continua minguando, até a sua invisibilidade prática. Na Bolívia, a tentativa de privatização da água foi finalmente derrotada por um levante popular que conduziu ao poder, pela primeira vez na sua história, a maioria indígena. O Banco Mundial acaba de emitir a autorização para que a mineradora multinacional Pacific Rim possa proceder com sua demanda contra El Salvador, por ter tratado de preservar terras e comunidades de uma mineradora de outro extremamente destrutiva. As restrições de ordem ambiental ameaçam com a privação para a empresa de lucros futuros, delito que deve ser punido de acordo com as regras que o regime de direitos do investidores etiquetou como “livre comércio”. E isso não é mais que uma minúscula mostra das lutas em curso em boa parte do mundo, algumas das quais engendram extrema violência, como no Congo Oriental, onde se matou milhões de pessoas nos últimos anos para se assegurar os componentes minerais dos telefones celulares e de outros aparelhos, e, claro, os lucros gigantescos.

A ascensão das práticas e da moralidade capitalistas implicaram uma revisão radical no tratamento dos bens comuns, e também na sua concepção. A visão predominante hoje reproduz o argumento influente de Garrett Hardin, segundo o qual “a liberdade dos bens comunais termina por nos arruinar a todos”: o que não tem propriedade será destruído pela avareza individual.

O equivalente desse argumento, no âmbito do direito internacional, cai sob o conceito de terra nullius, empregado para justificar a expulsão das populações indígenas nas sociedades coloniais das populações da América inglesa e espanhola, ou seu extermínio, tal como o descreveram os pais fundadores da república dos Estados Unidos do que estavam fazendo, às vezes com remorso. De acordo com essa doutrina tão útil, os índios não tinham direito de propriedade, visto que não eram mais que nômades numa agreste natureza virgem. E os colonos que trabalhavam duro podiam criar valor ali onde não havia, dando um uso comercial a essa mesma natureza virgem.

Na realidade, os colonos eram mais espertos e houve procedimentos elaborados de aquisição e ratificação por parte da coroa e do parlamento, posteriormente anulados pela força, quando essas criaturas malvadas resistiram ao seu extermínio. A doutrina atribui tais mecanismos, amiúde, a John Locke, mas isso é duvidoso. Como administrador colonial, ele entendeu o que estava acontecendo e não há base em seus escritos para atribuir-lhes tal coisa, como os especialistas acadêmicos contemporâneos estabeleceram, de forma convincente, e em especial a obra do especialista australiano Paul Corcoran (foi, de fato, na Austrália onde essa doutrina se aplicou com maior brutalidade).

As sombrias previsões da tragédia dos bens comunais não se deram sem resistência. Elinor Olstrom foi agraciada em 2009 com o Premio Nobel de Economia por trabalhos que demonstravam a superioridade da gestão de pescarias, pastos, bosques e fontes de água subterrâneas, por parte de seus usuários. Mas a doutrina tem força se aceitamos sua premissa implícita: que os seres humanos estão cegamente impulsionados pelo que os trabalhadores estadunidenses, no início da revolução industrial, chamaram com amargura de “o Novo Espírito de Época: torna-te rico e esquece-te de tudo, menos de ti mesmo”.

Assim como os campesinos e trabalhadores ingleses antes deles, os trabalhadores estadunidenses denunciaram este Novo Espírito que se lhes impunha, julgando-o degradante e destrutivo, e um ataque à natureza mesma dos homens e mulheres livres. E saliento o caso das mulheres; entre as mais ativas e eloquentes em sua condenação da destruição dos direitos e da dignidade das pessoas livres por parte do sistema industrial capitalista estavam as “meninas das fábricas”, jovens procedentes das propriedades rurais empobrecidas. Elas também se viram esmagadas por um regime de trabalho assalariado supervisionado e controlado, que se considerava, à época, distinto do cativeiro só porque era temporário. Essa condição era considerada tão natural que se converteu no lema do partido republicano, uma bandeira levantada pelos trabalhadores do norte durante a Guerra Civil norte-americana.

Controlar o desejo de democracia
Isso aconteceu há 150 anos. Na Inglaterra, aconteceu antes. Tem-se dedicado grandes esforços para meter o Novo Espírito de Época na cabeça das pessoas. Há setores de grande importância que se concentram nesta tarefa: o de relações públicas, a publicidade, os operadores do mercado, o partido Republicano, todos esses se supõe respondem por parte muito importante do Produto Interno Bruto. Dedicam-se ao que um grande economista político denominou “fabricação de necessidades”. No mundo dos mesmos dirigentes empresariais, a tarefa consiste em comandar as pessoas para que elas se dirijam a “coisas superficiais” da vida, como “o consumo ou a moda”. Dessa forma, pode atomizar-se as pessoas, buscando só a ganância pessoal, afastando-as dos perigosos esforços de pensarem por si mesmas e de questionarem essas autoridades.

O processo pelo qual se molda a opinião, as atitudes e as percepções foi chamado de “engenharia do consentimento” por um dos fundadores da moderna indústria de relações públicas, Edward Bernays. Bernays foi um respeitado progressista de Wilson-Roosevelt-Kennedy, muito do estilo de seu contemporâneo, o jornalista Walter Lippmann, o mais destacado intelectual público do século XX nos EUA, que alardeava “a fabricação do consentimento” como a “nova arte” na prática da democracia.

Ambos entenderam que há que se “pôr o público no seu lugar”, marginalizado e controlado, segundo o seu próprio interesse, claro. As pessoas seriam demasiado “estúpidas e ignorantes” para que se lhes permitisse a administração de suas próprias coisas. A tarefa devia recair na “minoria inteligente”, a qual deve se proteger do “atropelo e dos rugidos do rebanho perplexo”, nos “intrusos intrometidos e ignorantes”, na “multidão canalha”, como o denominavam seus predecessores no século XVII. O papel da população em geral consistia em tornarem-se “espectadores”, não em “participantes da ação”, numa sociedade democrática que funcione como é devido.

E não se deve deixar que os espectadores vejam em demasia. O presidente Obama estabeleceu novos padrões para salvaguardar esse princípio. De fato, ele tem punido mais denunciantes de desmandos que todos os demais presidentes anteriores, uma verdadeira conquista para uma administração que chegou ao poder prometendo transparência. O Wikileaks não é mais que o caso mais célebre, com a cooperação dos britânicos.

Entre as muitas questões que não são assunto da manada perplexa está a política externa. Quem quer que tenha estudado documentos secretos terá descoberto que em boa medida sua confidencialidade estava destinada a proteger funcionários públicos do julgamento da opinião pública. No plano nacional, a escumalha não deveria escutar o conselho que os tribunais dão às grandes empresas: que estas deveriam dedicar alguns esforços visíveis às boas ações, de modo que “a população esclarecida” não se dê conta dos imensos benefícios concedidos a essas corporações pelo estado maternal. De modo mais geral, o público estadunidense não deveria inteirar-se de que as “medidas políticas do Estado são brutalmente regressivas, com o que reforçam e estendem a desigualdade social”, ainda que sejam desenhadas de forma que conduzam a “que as pessoas pensem que o governo ajuda somente aos pobres, que não o merecem, permitindo assim que os políticos mobilizem e explorem a retórica e os valores antigovernamentais, mesmo quando continuam canalizando apoio a seus eleitores melhor situados”….cito isso da principal revista mainstream, a Foreign Affairs, não de um jornalzinho radical.

Com o tempo, conforme as sociedades se tornavam mais livres e o recurso da violência do Estado mais constrangido, o impulso de conceber métodos sofisticados de controle das atitudes e da opinião não fez senão crescer. É natural que a imensa indústria de relações públicas tenha sido criada nas sociedades mais livres, os Estados Unidos e a Grã Bretanha. A primeira agência de propaganda moderna foi até há um século o Ministério da Informação britânico, que definiu de modo secreto o seu trabalho, em termos de “dirigir o pensamento da maioria do mundo” – sobretudo os intelectuais progressistas estadunidenses, que tinham se mobilizado para apoiar a Grã Bretanha durante a Primeira Guerra Mundial.

Seu homólogo estadunidense, o Comitê de Informação Pública, foi formado por Woodrow Wilson para levar uma população pacifista ao ódio violento a todo alemão…com notável êxito. A publicidade comercial estadunidense impressionou profundamente a outras pessoas. Goebbels a admirava e a adotou na propaganda nazi, com muitíssimo êxito. Os dirigentes bolcheviques tentaram fazê-lo, mas seus esforços foram torpes e ineficazes.

Uma tarefa interna primordial tem consistido sempre em “manter o público fora de nossas gargantas”, assim como o ensaísta Ralph Waldo Emerson descreveu as preocupações dos dirigentes políticos à medida que a ameaça à democracia ia se tornando mais difícil de suprimir, em meados do século XIX. Mais recentemente, o ativismo da década de 1960 gerou inquietação com uma “excessiva democracia” e teve como reação medidas que impuseram uma “moderação maior” na democracia.

Uma preocupação em particular consistiu em introduzir melhores controles sobre as instituições “responsáveis pela doutrinação dos jovens”: escolas, universidades, igrejas, que se considerava estavam fracassando nesse trabalho essencial. Estou citando reações de um representante da extrema esquerda liberal dentro do espectro dominante, os internacionalistas liberais, que mais tarde nutriram a administração Carter e seus homólogos de outras sociedades industriais. A ala direita era muito mais áspera. Uma das muitas manifestações desse impulso consistiu no aumento brusco das mensalidades universitárias, que não se baseavam em razões econômicas, como se pode facilmente demonstrar. O mecanismo, no entanto, amarra e controla bem os jovens, mediante o endividamento, em regra por toda a vida, contribuindo assim para um doutrinamento mais eficaz.

O povo dos três quintos
Para ir um pouco além com esses temas de grande importância, observamos que a destruição da Carta do Bosque, e o seu desaparecimento da memória estão muito mais estreitamente relacionados aos esforços para restringirem a promessa da Carta de Direitos. O “Novo Espírito de Época” não pode tolerar a concepção pré-capitalista de bosque, como fundo compartilhado de bens comuns, da comunidade em seu conjunto, cuidado de forma comum para o seu uso e das gerações futuras, protegido da privatização para que sirva à opulência, não às necessidades. Inculcar o Novo Espírito constitui um requisito essencial para se alcançar esse objetivo, assim como para impedir que a Carta de Direitos seja utilizada mal, por parte dos cidadãos, para determinarem o seu próprio destino.

As lutas populares para criar uma sociedade mais livre e justa se depararam com a resistência oferecida pela violência, pela repressão e pelos esforços massivos para controlar a opinião e as atitudes. Com o tempo, no entanto, tem desfrutado de êxito considerável, ainda que haja um grande caminho a ser percorrido e, amiúde, encontremos retrocessos. Estes existem, na realidade, agora mesmo.

A parte mais famosa da Carta de Direitos é o artigo 39, que declara que “não se punirá de modo algum ao homem livre” nem “procederemos contra ele ou o perseguiremos, salvo mediante o devido processo de seus iguais e por meio da lei em vigor no lugar”.

Graças a muitos anos de luta, o princípio conseguiu se sustentar de forma mais ampla. A constituição dos EUA estabelece que nenhuma pessoa “seja privada da vida, da liberdade ou da propriedade, sem o devido processo legal e um juízo rápido e público” por parte de seus iguais. O princípio básico reside na “presunção de inocência” – o que os historiadores do direito descrevem como “a semente da liberdade anglo-americana contemporânea”, referindo-se ao artigo 39, e tendo em mente o Tribunal de Nuremberg, uma “variedade especialmente estadunidense de legalismo: o castigo unicamente para aqueles cuja culpabilidade demonstrou-se mediante um julgamento justo, com uma série e proteções procedimentais”, embora não haja dúvidas de sua culpabilidade por alguns dos piores crimes da história.

É claro que os pais fundadores não tinham a intenção de que o termo “pessoa” se aplicasse a todas as pessoas. Os nativos norte-americanos não eram pessoas. Seus direitos eram praticamente nulos. As mulheres eram escassamente pessoas. Entendia-se que as esposas fossem “cobertas” pela identidade civil de seus maridos, do mesmo modo que as crianças estavam sujeitas a seus pais. Os princípios de Blackstone sustentavam que “o ser mesmo ou a existência legal da mulher se suspendem mediante o matrimonio, ou ao menos se incorporam ou consolidam naquele do marido: sob a proteção e cobertura deste, ela leva a cabo qualquer atividade”. As mulheres são, portanto, propriedade de seus pais e de seus maridos. Esses princípios continuaram em vigor até há poucos anos. Até a decisão da Corte Suprema, de 1975, as mulheres sequer gozavam do direito legal de tomar parte num júri popular. Não eram iguais. Há duas semanas, a oposição republicana bloqueou a Lei de Justiça Salarial [Fairness Paycheck Act] que garantia às mulheres salário igual a trabalho igual. E vai muito além.

Os escravos, é claro, não eram pessoas. Eram com efeito humanos só em três quintos das partes, de acordo com a Constituição, para poder assim outorgar aos seus proprietários maior poder de voto. A proteção da escravidão não foi uma preocupação menor dos pais fundadores: foi um fator que conduziu à revolução norte-americana. Em 1772, no caso Somerset, Lord Mannsfield determinou que a escravidão é tão “odiosa” que não se podia tolerá-la na Inglaterra, embora continuasse em vigor, durante muitos anos, nas colônias britânicas. Os proprietários de escravos norte-americanos viram claramente o que se avizinhava nas colônias sob o domínio britânico. E há que se recordar que os estados escravocratas, inclusive a Virgínia, dispunham de maior poder e influencia nas colônias. Pode-se entender facilmente a célebre ironia do Doutor Johnson, segundo a qual “ouvimos os gritos mais as liberdades berrantes dos proprietários de negros”.

As emendas posteriores à Guerra Civil estenderam o conceito de pessoa aos afroamericanos, acabando com a escravidão. Ao menos em teoria. Depois de cerca de uma década de relativa liberdade, reintroduziu-se uma situação semelhante à escravidão graças a um pacto Norte-Sul que permitia a efetiva criminalização da vida dos negros. Um homem negro na esquina de uma rua podia ser detido como vagabundo, ou por tentativa de estupro, caso olhasse para uma mulher branca de modo equivocado. E, uma vez no cárcere, tinha poucas possibilidades de escapar do sistema de “escravidão com outro nome”, termo utilizado pelo então chefe de redação do Wall Street Journal, Douglas Blackmon, em estudo conhecido.

Esta nova versão da “instituição peculiar” proporcionou boa parte da base da revolução industrial estadunidense, com uma perfeita mão de obra para a indústria de aço e mineração, junto à produção agrícola nas famosas cordas de presos encadeados: dóceis, obedientes, sem greves e sem necessidade de que os seus patrões sustentassem sequer os seus trabalhadores; um aperfeiçoamento da escravidão. O sistema durou em boa medida até a Segunda Guerra Mundial, quando se tornou necessário o trabalho livre para a produção bélica.

O auge do pós-guerra proporcionou empregos. Um homem negro podia conseguir trabalho numa fábrica sindicalizada, ganhar um salário decente, adquirir um casa e, talvez, enviar seus filhos à universidade. Isso durou uns vinte anos, até a década de 1970, quando a economia voltou a desenhar-se de forma radical, de acordo com os novos princípios neoliberais dominantes, com o rápido crescimento da financeirização e o deslocamento da produção industrial. A população negra, hoje em boa medida supérflua, voltou a ser criminalizada.

Até a presidência de Ronald Reagan, o encarceramento nos EUA se encontrava no nível do das sociedades industriais. Hoje se encontra em grande distância das demais. Toma como objetivo primordial os homens negros, e cada vez mais as mulheres negras e hispânicas, em boa medida culpadas de delitos sem vítimas, dentro das fraudulentas “guerras das drogas”. Entretanto, a riqueza das famílias afroamericanas foi praticamente apagada pela crise financeira atual, em não pouca medida graças ao comportamento criminoso das instituições financeiras, com impunidade para os seus perpetradores, hoje mais ricos do que nunca.

Se se observa a história dos afroamericanos desde a chegada dos primeiros escravos há quase 500 anos até hoje, eles só desfrutaram da autêntica condição de pessoas durante poucas décadas. Ainda há um longo caminho para se realizar a promessa da Carta Magna.

(*) Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofia do MIT.

Tradução: Katarina Peixoto

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