SERÁ QUE NÃO É UM BOM CAMINHO-CARTA A UM JOVEM PROFESSOR!!!!!!!!


CARTA A UM JOVEM PROFESSOR

Quando se trata de educação, que tipo de toque pode ser dado que já não foi exaustivamente falado, repetido, discutido e transformado naqueles velhos bordões que sempre ouvimos?Sinceramente, não sei. Será que alguém ainda pode se interessar por isso? Pode ser que não. Mas, se no começo da minha carreira, ao invés de muita baboseira burocrática, eu tivesse ouvido os toques abaixo, acho que eu teria escutado:

Nunca espere envolver todos os alunos com sua aula, mas nunca se contente com meia dúzia. Essa história de “se apenas um aluno me ouvir está bom, já cumpri meu papel” é mentira.

– Nunca – jamais! – troque uma boa prática, daquelas que realmente você faz com consciência de resultado, por um modismo da professora vizinha, que chega alardeando um curso com um bam-bam-bam da educação. Espere as idéias amadurecerem para embarcar nelas. Hoje em dia, muita gente está cheia de receitas em livrinhos de doze reais, mas pouca coisa realmente é calcada numa prática realista. Muita gente que escreve não toma o Brasil como referência ou não sabe o que é uma caderneta. Há muito mais auto-ajuda pedagógica do que profissionais competentes na estante da livraria.

– Uma escola pública, embora não pareça, é uma instituição com regras e hierarquia. Nunca fale essas duas palavras em voz alta, mas mostre que você conhece o significado delas: tanto na mão que vem quanto na mão que vai.

– Nunca recolha dinheiro de aluno para nada.

– Conhecer as modernas teorias serve muito bem para papear na sala dos professores, mas lembre-se sempre: você trabalha com cérebros em formação. Constantes rupturas não chegam a lugar nenhum. Tenha um fio condutor do seu trabalho e saiba incorporar com naturalidade as mudanças.

– Criança é um serzinho bonitinho, mas muito cheio de manha. Você é mãe de seus filhos, não de seus alunos. Saiba essa diferença. Esse negócio de pedagogia do amor é relativo. Você é uma profissional.

– Autoridade e autoritarismo são coisas extremamente diferentes. Autoridade em sala de aula se constrói sobretudo em cima de duas coisas: conhecimento e respeito. Se você vai dar uma aula, mesmo que o assunto seja muito simples, vá sabendo bem mais do que aquilo que você tem de ensinar. Saiba tudo de forma global, não de forma isolada, fatiada. Saiba contar a história daquilo que você tem de ensinar. Mesmo que não vá usar em sala todo esse entorno, o aluno deve sentir que seu conhecimento vai além disso. Autoritarismo não tem nada a ver com isso. Geralmente ocorre na situação oposta: quando a pessoa não tem muito a oferecer.

– Quando você vai tomar uma atitude pouco popular em sala de aula, explique muito bem o porquê de sua atitude. Contextualize isso em relação à direção e a você como profissional. Explique, mesmo que sejam crianças.

– Não tenha medo de levar um livro na sala de aula e lê-lo diante dos seus alunos. Lembre-se: livro; não revista de fofoca ou resumo de novela.

– Se um dia você sentir que vai explodir, saia da sala de aula. Não diga nada ali dentro.

– Sempre atenda pais sob a supervisão de um coordenador, diretor ou mesmo algum colega. Nunca atenda pais sozinha.

– Não há segredos em sala de aula. Se você falou uma palavra errada, deu algum fora ou cometeu algum deslize, saiba: todos estão comentado, mesmo que não falem nada a você.

– Sim, você tem apelidos.

– Muito cuidado com a internet. Um monte de alunos no Orkut pode ser uma fria.

– Se você está com sutiã preto e ele está aparecendo sob a camisa da escola, os alunos vão falar. Se você se senta e sua calcinha (ou algo mais) fica aparecendo, os alunos vão falar. Se você tomou café e está com hálito, os alunos vão falar. Eles sabem o ano do seu carro, o nome dos seus filhos, a cor da tinta que você passa ou não no seu cabelo, eles reconhecem quando você está para ficar menstruada, conhecem a marca do seu sapato e a operadora do seu celular. Saiba: você está muito mais exposta do que imagina. Aprenda a lidar com isso.

– Se um péssimo aluno fala mal do seu trabalho, isso é um elogio. Se um bom aluno não fala nada, é hora de começar a rever o que você está fazendo.

– Numa escola, existem professores realmente excelentes, como pessoas e profissionais. Eles, às vezes, não são percebidos pela direção nem pelos alunos. Estão ali quietinhos, há muito tempo, fazendo o que têm que fazer. Não são professores badalados, não freqüentaram as grandes universidades, mas são os que, realmente, estão ao seu lado quando realmente você precisa. Saiba identificá-los e trabalhe ao lado deles.

– Numa escola, existe o errado que ninguém pode fazer, o errado que todos fazem e o errado que só alguns podem fazer; existe o certo que todos devem fazer, o certo que só alguns fazem e o certo que ninguém faz. Aprenda a circular entre essas coisas.

– Um bom professor sabe dar aula com data-show ou com um panfleto de propaganda que ele encontrou na porta da garagem quando estava saindo. Deixe claro ao coordenador que você sabe isso.

– Ainda sobre tecnologias: sempre-sempre-sempre tenha um plano B, baseado no giz e lousa, quando você tiver que dar uma aula esquematizada para uso de retroprojetor, computador e outros bichos. Essas coisas são muito “sentimentais” e podem deixar você na mão na hora h. Saber sair dessa demonstrando preparo é obrigação de quem está em sala de aula.

– Fale bem do seu trabalho, ou melhor, divulgue seus resultados. Ninguém vai fazer isso por você.

– Tenham um portfólio pessoal de tudo aquilo que você faz. Projetos significativos devem ser filmados e gravados num CD. Exposições devem ser fotografadas. Monte pastas com esse material, organizando em forma de relatório, com toda a descrição do projeto, objetivos, resultados, avaliação diagnóstica, enfim. Às vezes, um bom portfólio pessoal com boas práticas vale mais do que um currículo recheado de cursos e teorias.

– Jogue fora papéis velhos. Acredite: você não vai usá-los no ano que vem.

– Nunca faça uma bobagem com a desculpa de boa vontade pedagógica. Só para ilustrar: uma vez, uma professora novinha numa escola particular (cara) onde eu dei aula quis “vivenciar a prática da matemática no dia-a-dia” e levou os alunos a uma feira. Preciso continuar…?

– Por fim: todas as pessoas sabem fazer muito bem uma coisa, e você, como professora, também. Saiba reconhecer o que você faz como ninguém e faça disso a marca registrada do seu trabalho, mesmo que a “moda pedagógica” esteja gritando o contrário. Ergua a cabeça, siga com seu trabalho, que a tempestade passa. Hoje exigem que o professor praticamente seja um deus – e parece que estão esquecendo o básico. Se você pegou os alunos aqui e deixou-os com um progresso em relação a coisas essenciais, você não é o fracasso que estão dizendo por aí. Somos todos importantes para a educação – e sempre haverá alunos que precisam do nosso trabalho. O que importa é a qualidade, não a grife pedagógica.

Rita Roberta Marioto
Publicado no culturatura em: Mai/08

 

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