QUAL O LUGAR DA POLÍTICA ?


DEBATE ABERTO

Qual o lugar da política?

O horror à política a que se assistiu desde o inicio da campanha eleitoral representa os problemas e limites da política nos dias de hoje. Essas questões merecem ser debatidas pela política nos seus devidos lugares, inclusive em meio virtual, apesar das limitações.
Nas últimas semanas uma onda de postagens nas redes sociais revelou a magnitude da desconfiança de cidadãos comuns em relação à politica.

Diversas formas de manifestação suscitavam que as redes não deveriam servir para fins eleitorais. De modo algum que essa constatação seja inédita diante do comportamento da sociedade, porém, a natureza do ato representa os limites da democracia, no que se refere as atribuições da sociedade civil e da sociedade política. Tais limites são, inclusive, particulares, ao contexto brasileiro de disputa em torno do projeto democrático.

No âmbito normativo, a democracia prescinde da politização da sociedade, na medida em que valoriza os arranjos institucionais e a participação diante do poder público. A comunidade política se autogoverna e se autodetermina na figura dos cidadãos. O poder democrático deve diminuir a distância entre os que dirigem e são dirigidos, ou seja, os governados também governam. Essas premissas reafirmam que a democracia se justifica pela participação e representação, tornando o Estado soberano somente admitido através de um povo soberano.

Essa concepção delineada pela teoria democrática, mesmo cedendo espaço ao diálogo em torno da participação como expressão do projeto democrático contemporâneo, deve refletir em torno da constatação factual de que a política não vive bons momentos.

As armadilhas impostas a democracia se baseiam no aprofundamento de sociedades fincadas no mundo privado, estabelecendo um “vazio” encarnado na percepção de que os grandes interesses em curso não são devidamente determinados pela política, mesmo sendo figurada na sociedade civil ou na sociedade política (Estado).

O descrédito conferido a política pode ser interpretado diante do desempenho das instituições, porém, desconfia-se que resulta da predominância do “poder privado” enquanto um ethos de maior amplitude no entendimento das sociedades contemporâneas. Está aparente na sociedade a ideia de que a política não presta, tratando-se de uma “alma penada” a que todos devem conviver, mas sabendo que a “salvação” está sob a dimensão do mercado, fazendo uso de um repertório singular (choque de ordem, eficácia, gestão, técnica, competência, etc.). Essa percepção reafirma a política como um “Judas”, ambiente de traições e conluios, sem diferenciar o joio do trigo.

Para o cientista político Marco Aurélio Nogueira, a política é “luta de ideias e valores, esforço para estabelecer e para fazer que prevaleçam projetos de sociedade, modos de organizar a convivência e de resolver conflitos” (p. 21). A política necessita do poder, postulando espaços onde indivíduos e grupos expressem suas posições e busquem se reafirmar.

A potencial realização da vida privada encara o cidadão como um consumidor, desgastando ainda mais as democracias já merecedoras de reparos. O neoliberalismo, de antemão, reforça um liberalismo centrado nas liberdades econômicas, que busca indivíduos vocacionados ao auto-interesse.

O horror à política a que se assistiu desde o inicio da campanha eleitoral representa os problemas e limites da política nos dias de hoje. Essas questões merecem ser debatidas pela política nos seus devidos lugares, inclusive em meio virtual, apesar das limitações. O lugar da política nos dias atuais merece ser repensado, sobretudo diante das insatisfações a que as democracias costumam causar.

(*) Cientista político, professor e Doutorando em Ciências Sociais pela UFBA.
(clandresouza@gmail.com)
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